Colunistas|24.jun

A vida e a síndrome do sapo fervido

Os sapos, diferente de nós, são animais de sangue frio, isto é, a temperatura interna do seu corpo se adapta a temperatura ambiente.
Então se você pega um sapo a temperatura ambiente e coloca em uma panela com água a temperatura também ambiente, isso estará adequado e confortável para ele. Se na sequência você coloca essa panela no fogo, a cada grau que se eleva a temperatura da água, se eleva também a temperatura interna do sapo, mantendo-o em uma zona aparentemente confortável.

O fato é que na medida em que a temperatura vai subindo e seu organismo aquecendo de modo simétrico, vai chegando essa elevação térmica à pontos já perigosos sem que ele venha a se dar conta que está sendo cozido vivo.

Mas como nosso assunto é gente e não sapos, o leitor deve estar se perguntando o porquê dessa temática, então cabe aqui um justo esclarecimento.

Essa abordagem foi feita pra falar um pouco sobre relacionamento abusivo, sem pretender esgotar o tema.

Relacionamentos abusivos não começam sendo desse modo, senão repeliriam rapidamente a pretensa vítima, ao contrário, costumam começar de modo muito encantador, envolvente e dedicado, isso é chamado de Love Bombing, ou bombardeio de amor.

À partir de ter acostumado a vítima a ser tão especialmente tratada, começa a aparecer pequenos comportamentos exigindo dela isso ou aquilo, como senhas, evitar alguma amiga, controlar roupas e maquiagem, mas de modo compassado, cozinhando lentamente o sapo.

Como o abusador a trata tão bem, decide não ser opor a ceder, já que parece algo pequeno demais para se criar caso. As exigências vão sendo cada vez mais frequentes e até mesmo hostis mas essa cadência torna bem difícil pra vítima perceber o problema que está se formando.

É comum ter tido diversos aspectos comprometidos antes que tenha se dado conta, do social ao financeiro, passando pelo familiar, mas esse é um outro capítulo para uma outra semana.

Até lá vamos vamos tentar focar se não somos um belo batráquio em uma vasilha de água escaldante


por Silvio Ortiz