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Carta para mães “imperfeitas”

MÃES “IMPERFEITAS”

 

Fazendo uma rápida pesquisa no Google, sobre o significado da palavra “imperfeita”, teremos alguns resultados como esse:

 

IMPERFEITA: quem tem defeitos, obra imperfeita. Incompleta. Sinônimos: incompetente, inferior, fraca, insuficiente, incapaz, ruim, mediana, péssima, despreparada, irregular…

 

Seus sinônimos são bastante pesados. Realmente um fardo ter que carrega-los e se você já se sentiu assim, já pensou algo parecido, em relação a educação de seu(s) filho(s) então tenho que te dizer, bem-vinda ao clube das mães imperfeitas!

Como psicopedagoga clínica, ao atender as crianças, sempre atendo suas famílias. Na concepção que tenho de atendimento psicopedagógico não posso separar a criança/adolescente de seu ambiente familiar e do quanto ele influencia na sua vida escolar. Ao escutar as queixas dos responsáveis (geralmente mães, pois na nossa sociedade a educação dos filhos, em grande parte das famílias, é vista somente como responsabilidade da mulher), quanto as dificuldades de seus filhos, não poucas vezes, escuto frases tipo:

 

“— Me sinto fracassada. Ver meu filho sendo o último a terminar as atividades, faz eu pensar que não sou uma boa mãe”.

“— Ele não aprende e eu me sinto culpada, insuficiente. Aí vejo outras mães com filhos que fazem tudo certo”.

“— Ele não consegue aprender, eu não consigo ensinar, me sinto incompetente. Parece que não sei o que é melhor para meu filho, que sou despreparada”.

“— Ele chora para estudar, eu choro escondido dele, porque não sei como ajudar, me sinto fraca, impotente diante da dificuldade dele”.

“— Não tenho o controle da situação, me sinto péssima”…

 

Resolvi então fazer uma carta, principalmente para mães que tem filhos que apresentam dificuldades de aprendizagem, notas abaixo da média, etc. Mas também para aquelas que um dia sentiram-se imperfeitas, seja aos olhos de si mesmas, da sociedade, da família ou mesmo dos próprios filhos. Ser e admitir que somos mães imperfeitas num mundo que nos cobra tanta perfeição é um ato, primeiramente de coragem, depois de libertação. Então esse texto é especialmente a você, que assim como eu, não é perfeita.

 

“Ei mãe,

Está tudo bem não ser perfeita. Na verdade, ninguém é. E acredite até os doutores e pós doutores em educação não conseguem ser pais perfeitos. Não pense que os psicólogos, pedagogos, psicopedagogos acertam sempre na educação dos filhos. Não acertam, e está tudo bem, eles também não são obrigados a acertar.

Não se sinta culpada! Você não é! Nem seu filho! Quem disse que todas as crianças aprendem no mesmo ritmo? Ao mesmo tempo? Do mesmo modo? Não aprendem. Cada criança tem sua individualidade e cabe a escola descobrir como ensinar. Você deve ajudar seu filho a se organizar com os estudos, com seus horários, com seus materiais, etc. Mas você não tem obrigação de ensinar, mesmo que você seja professora, em casa, você é “Mãe”.

Você não fracassou, muito menos seu filho! Não permita que ele se sinta um fracassado com 6,7, ou mesmo com 18 (ou mais) anos de idade. Quem colocou prazo para sermos ou fazermos as coisas? Não estou dizendo aqui, deixe livre e faça o que quiser, quando quiser, é necessário limite e disciplina. Mas qual o instrumento usado para saber quem está adiantado ou atrasado e em relação a que ou a quem? É possível afirmar que terá sucesso na vida somente aquele que aprendeu a ler e escrever na “idade certa”? Existe idade certa? (em relação ao tempo certo, discutiremos melhor, numa próxima reflexão).

Não chore, mas também não engula o choro. Procure entender porque isso te abala tanto. Porque te faz sofrer? E faça essa pergunta para seu filho. Estimule-o a falar sobre suas emoções. Como se sente. Porque isso lhe incomoda. Pergunte como você pode ajudá-lo. O que você pode fazer. Escute-o. Acolha o que ele te disser, sem julgamentos.

Desacelere! Respire! Deixe seu filho respirar também. Sua ansiedade não ajudará a aprender mais rápido. Ao contrário, gerará ansiedade nele e isso prejudicará ainda mais sua aprendizagem. Ele não precisa ser o primeiro, o melhor em tudo. Ele precisa ser o melhor que pode ser. Não se conforme com o mínimo, mas não exija o que ele ainda não consegue oferecer.

Não adianta, você não tem o controle sobre a vida dele. Mesmo que você queira, a vida é dele e não sua. Seus sonhos, suas expectativas, suas frustrações não podem ser um peso pra ele carregar. Ele terá os sonhos, as expectativas e as frustrações dele e você só pode ajudá-lo a entender tudo isso. Inclusive, frustração é essencial para um desenvolvimento saudável.

Não se cobre tanto! Você faz teu melhor com as ferramentas que tem! Ninguém erra porque quer. Se erramos é tentando acertar. Temos que parar de querer dar conta de tudo. E o preço de tentar fazer isso, é alto demais! Nossos filhos precisam de nós com saúde mental, felizes, então, se não está conseguindo, peça ajuda. Existe muitos profissionais preparados para auxiliar na aprendizagem de seus filhos!

Não se preocupe, quase ninguém sabe o que está fazendo nesse aprendizado de ser mãe. Se cada pessoa é única, não existe um único modo de educar. Então o que sua sogra diz, sua mãe, sua tia, sua vizinha, ou mesmo um especialista, pode ser que não funcione com seu filho. Busque você mesmo o que é melhor pra ele. De que modo? Tentativa e erro! É assim que na maioria das vezes aprendemos!

Ei mãe, lembre-se sempre, você não está sozinha! Somos muitas imperfeitas por aí, então vamos normalizar a “imperfeição materna” e sermos mais livres e felizes”!

 

PERFEIÇÃO: sem defeitos, sem falhas, o mais elevado grau de exatidão, grau de excelência.

É, realmente ficarei devendo uma carta para as mães perfeitas, não estou apta a escrever, pois não tenho experiência no assunto!

Obs.: Esse texto não pretende ensinar nada a ninguém, é apenas para dizer àquelas que se sentem imperfeitas, que não estão sozinhas!


por Claudinéia Schinemann

Mestra em Educação. Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Graduação em Pedagogia com habilitação em Orientação Educacional. Magistério. Atua na área educacional há mais de 25 anos. Possui experiência na Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Formação de Docentes e no Ensino Superior. É escritora e contadora de histórias. A infância é sua maior fonte de inspiração, mas também tem projetos para a literatura infanto-juvenil. Tem um canal no Youtube para Contação de Histórias.