Colunistas|03.jun

Cegados pelo acaso.

Schopenhauer no século XIX descreveu, de maneira genial, o dilema da eterna
falta. Quantas vezes você já quis muito algo e quando conseguiu sentiu um vazio
enorme e começou a querer outra coisa? Essa última frase descreve 16,17 anos da
minha vida, sempre em busca do próximo show, da próxima viagem, do próximo
curso, e quanto mais eu buscava menos feliz e realizado eu era.

A falta me causou dor, depressão mas também essa eterna busca me fez valorizar
e apaixonar-me pelo processo, sim o PROCESSO. Planejar viagem, planejar o
curso, planejar o próximo passo era mais prazeroso que o passo, a viagem ou o
curso em si.

Engraçado como um mesmo problema pode causar em mim duas sensações tão
antagônicas, a tristeza, a depressão e ao mesmo tempo a alegria e o prazer. Outra
coisa que a vida e Taleb me ensinaram foi sobre a aleatoriedade das coisas,
quantas vezes eu planejei, idealizei, me programei por algo e nada daquilo, ou
quase nada daquilo aconteceu? Planejar, programar está no nosso controle, mas
aquilo acontecer da maneira esperada…….

Confesso que lidar com a aleatoriedade da vida tem sido muito mais difícil do que
com a “eterna falta” mas ambas as dores me calejaram e me tornaram uma pessoa
melhor, ao menos na minha convivência comigo mesmo. Estamos vivendo um
período da nossa história que parece sem fim, mas que em perspectiva será
pequeno. Todos os momentos trágicos da história humana pareciam enormes e
sem fim para quem os viveu, mas com o passar do tempo eles foram se tornando
menores e apenas uma lembrança ruim. O mundo continuou existindo após as
grandes guerras, o mundo continuou existindo após a gripe espanhola, o mundo
continuará existindo após a pandemia da Covid-19.

Não precisamos encontrar vilões e heróis, esse processo causa mais dor do que a
própria doença. Ao citar Schopenhauer e Taleb eu quis mostrar que não precisamos
de um vilão e de um herói, e que as coisas, SIM, podem e são aleatórias. Enquanto
cidadãos comuns se degladiam por um coquetel ou um lockdown, as pessoas
continuam morrendo. Não sei quantos já perceberam como a morte retroalimenta
essa briga, hoje temos uma guerra de dois lados, onde ambos pisam sobre
cadáveres e os usam como palanque, demagogos brigam por medicamentos ou
por políticas restritivas mas no fundo desejam a morte, pois a famigerada morte é
quem lhes dá discurso. Seria tão mais simples se seguissem Taleb e aceitassem
que a aleatoriedade é protagonista, seria tão mais honesto se percebessem que não
existe remédio milagroso, e que médicos podem ou não receitar o que acham
melhor para seus pacientes. Seria tão mais tranquilo de passar por esse mar revolto
se as pessoas percebessem que elas estão vivendo o dilema da eterna falta, e sem
perceber se apaixonaram por esse processo.

Responda de maneira sincera para você mesmo: 1 – Você acredita que os
governadores/prefeitos/presidente querem quebrar empresas ou ainda, querem que
cidadãos morram? 2 – Você acredita que profissionais da saúde que estão
trabalhando como nunca na vida, estão esgotando suas energias e dando notícias
tristes a famílias sobre óbitos, estão deixando de medicar pacientes com um
coquetel porque querem que pacientes morram? 3 – Você realmente acredita nas
respostas que você deu a você mesmo nas duas perguntas anteriores?

A base da ciência é duvidar de tudo e de todos, só assim o método científico é
exercido, só assim as grandes descobertas científicas acontecem. Se apaixone pelo
processo mas não se torne refém dele, à nossa vida possui muita influência do
acaso e não gaste seu tempo precioso brigando por algo irreal, curta cada segundo
com os seus queridos e lembre-se, mais cedo ou mais tarde tudo isso vai passar.

Gidalti Bueno Linhares


por Gidalti Bueno Linhares

Cirurgião dentista formado na Universidade Estadual de Ponta Grossa , especialista em Ortodontia, Pós Graduado em Biomecânica Ortodôntica.

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